
Eu havia chegado a pouco, e depois de um longo período de distância nos nós reencontrávamos. Não sabíamos muito bem o que esperar um do outro, e o destino parecia ter resolvido não ser muito gentil comigo na minha chegada.
A viagem tinha sido longa (mais longa do que a distância que nos separava), mas nada me impediria de reencontrar o meu amado. Ora, pelo simples fato de que nos amávamos! E isto me bastava para recorrer a qualquer sopro de vida que me levasse a caminhar a seu encontro, me bastava para atravessar oceanos (literalmente) só para sentir seu calor, me bastava para abrir mão de qualquer luxo, de tudo que me era conhecido, abrir mão até mesmo do meu próprio ego.
Mas nada disto bastava para saber o que esperar um do outro. E este desencontro de olhares se tornava mais evidente a cada dia. Não éramos mais os mesmos, mas acima de tudo havia o amor, aquele puro e forte, aquele amor colegial, aquele amor que não conhece a dor. E era só por isso que caminhávamos juntos.
Não nos reconhecíamos, e tudo ali parecia conspirar para aumentar minha insegurança. Mas por algum motivo que escapa a minha percepção ainda nos amávamos.
Eu o amava tanto, e tão completamente que estava ali sem nenhuma pretensão, estava ali só para apoiar meus passos. O amava tanto e tão completamente que isso por vezes o angustiava, pois não era tão transparente de amor, e temia não ser capaz de corresponder as minhas devoções.
Não lhe queria cobrar nada, tornava mudo tudo meu medo, sufocava qualquer íntimo desejo, para não lhe “atrapalhar”, mas mesmo me reprimindo aos meus extremos segurava firme sua mão quando caminhávamos juntos, como se fosse meu colete salva-vidas que impediria que me afogasse na solidão, como se fosse o ar que me faltava aos pulmões quando suspirava de saudade de casa.
Ele também me amava, eu sei, e nada seria capaz de convencer que não havia paixão no fundo daqueles olhos castanhos. Só eu sei o tamanho da ternura que havia em seu abraço, só eu sei que foi a mim que ele confidenciou seus segredos e temores mais obscuros.
Eu sei que ele também faria tudo que pudesse, mas aquilo tudo se tornava pesado demais para ele. Ora, ele é apenas um Rapaz!Tinha seus próprios desejos e dúvidas.
Nenhuma palavra precisava ser dita para entender este desencontro, e da janela da sala, a Serra nevada testemunhava este sentimento. Lá de cima uma pitada de gelo resistia à chegada da primavera, assim como o nosso amor. Esta certa afinidade nos levou a desejar estar lá em cima, lá no gelo da Serra.
Pegamos a estrada com nada mais que um desejo, uma fita cassete de músicas antigas e uma câmera, afinal isso merecia registros.
Quilômetros e quilômetros de subida, a cada metro pareciam tornar mais fácil tocar o Céu. Nossos sorrisos rasgavam a bruma branca que escondia o asfalto. Tudo era lindo lá de cima, os cães, as placas, os rios.
Queria poder engolir aquele momento, para que nunca mais ele saísse de mim. O boneco de neve realizou meu desejo de infância, e relembrou da infância desejada do meu Rapaz. Aquele não era um lugar incomum para mim, estive lá tantas vezes nas memórias contadas do meu Amor.
Entramos na neve, sem nos abater pelo frio. A alegria de estarmos ali, JUNTOS, era maior que qualquer sensação. O cândido nevoeiro nós envolveu, apagando todo a resto da paisagem, como se nada mais existisse. Nem asfalto, nem cães, nem placas, nem rios, nem desencontros.
Nada mais havia, em qualquer direção que olhássemos só víamos um ao outro. E isso nos bastava.
E aquela pitada de neve, que de longe se via, era na verdade quilos, toneladas, infindável quantidade de gelo. E para brindar a nossa Felicidade, nevava, recolocando grama a grama a neve que a primavera ousava derreter.
Aquele gelo nos dizia que ainda ia resistir bravamente, ultrapassando qualquer previsão, mas que um dia iria virar água, quando a primavera se tornasse “quente” e “pesada” demais para ele. Mas que ano após ano, no inverno, ele saberia como renascer, talvez não do mesmo jeito, talvez não no mesmo lugar. Mas com cada grama de neve, o gelo iria retornar, rigoroso e eterno, até a próxima primavera.

