quinta-feira, 20 de novembro de 2008


"Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio, que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca porque metade de mim é o que eu grito mas a outra metade é silêncio.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço e que essa tensão que me corroi por dentro seja um dia recompensada porque metade de mim é o que penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste e que o convivio comigo mesmo se torne ao menos suportavel que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância porque metade de mim é a lembrança do que fui a outra metade não sei.

Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra faze-la florescer porque metade de mim é plateiae a outra metade é cançao.

E que a minha loucura seja perdoada Porque metade de mim é amor E a outra metade tambem."


(Oswaldo Montenegro)

domingo, 5 de outubro de 2008

O que aprendi com a minha mochila.

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”Amyr Klink






Uma mochila pode ser só um pedacinho de tecido, onde agente carrega alguma coisa... para algum lugar...Mas a minha é quase uma conselheira, que acompanha nos horizontes mais encantadores, que me ampara na descoberta de novos rumos.E como toda boa amiga não pode deixar de me ensinar boas lições.

Ela me fez enxergar que para se atingir uma meta é preciso primeiro ter um planejamento, e se preencher de conteúdos relevantes. Que não importa quão forte eu seja, se fizer escolhas pesadas demais para suportar isso me trará dor.

E que cada vez que me deixou convencer pelo ego, pelo supérfluo, pela vaidade, sinto o pesar desnecessário me que dificulta seguir em frente.Entretanto quando abandono o fundamental, falta se fará sentir ,nesta, ou na próxima curva.

E é interessante perceber que cada vez que vou para casa volto com a bagagem mais cheia. Talvez por que seja de lá que me preencho do essencial.

Entendi que é importante conhecer o potencial daquilo que trago “dentro”, e entender que se me dispuser a ser flexível mais confortável pode ser minha adaptação.

Mas o mais formidável é perceber que são só as minhas escolhas,o adorável peso que me acompanham enquanto caminho à liberdade, e que as vezes, elas podem caber um pedacinho de tecido, onde agente carrega alguma coisa... para algum lugar.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Ser Biólogo



PENSANDO BEM...
SER BIÓLOGO NÃO É SÓ CUIDAR DE PLANTAS E ANIMAIS
SER BIÓLOGO É ACREDITAR NA IMORTALIDADE DA NATUREZA,
E QUERER PRESERVÁ-LA SEMPRE MAIS BELA.
SER BIÓLOGO É OUVIR OS RUÍDOS DA NATUREZA,
MAS PRINCIPALMENTE ENTENDÊ-LOS E AMENIZÁ-LOS.
É GOSTAR DE TERRA MOLHADA
DE MATO FECHADO, DE LUAS ,DE SOL E DE CHUVAS
SER BIÓLOGO É SE IMPORTAR SE A NATUREZA SOFRE.
SER BIÓLOGO É APROXIMAR-SE DE INSTINTOS.

É PERDER MEDOS
È GANHAR AMIGOS QUE JAMAIS IRÃO DECEPCIONÁ-LOS
SER BIÓLOGO É TER ÓDIO DE GAIOLAS, JAULAS E CORRENTES

É PERDER TEMPO ENORME APRECIANDO VÔOS DE GAIVOTAS

É PERMANECER DESCOBRINDO, ATRAVÉS DA NATUREZA,
A SI MESMO.
SER BIÓLOGO É TER CORAGEM DE PENETRAR NUM MUNDO DIFERENTE
E SER IGUAL.
É SER CAPAZ DE ENTENDER GRATIDÕES MUDAS.
MAS, SEM DÚVIDA NENHUMA, AS ÚNICAS VERDADEIRAS
É ADIVINHAR OLHARES, E LEMBRAR DO SEU TEMPO DE CRIANÇA.
SER BIÓLOGO É CONVIVER LADO A LADO COM ENSINAMENTOS PROFUNDOS
SOBRE O AMOR E A VIDA .


(Não fui eu que escrevi.... mas concordo... em cada palavra!)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Perfil


Quem sou eu?

Que pergunta estúpida!
Eu poderia dizer uma poesia que expressasse o que sinto, ou talvez emprestar a letra de uma musica que descrevesse o que penso de mim no momento. Mas dizer quem sou seria impossível, porque a verdade é que ninguém sabe realmente quem é.

Só o que sei de mim é que sou imperfeita.

Sou dramática, poetizo tudo ao meu redor, sinto intensamente todo o pesar e contentamento, já que acredito que os românticos vivem mais, ainda que morram cedo.

Sou ciumenta, e isto me ensina a valorizar a estima que sinto por cada ser único que entra em minha vida, e ser-lhes grata com lealdade.

Não tenho a menor afinidade com matemática, minha lógica não entende números, e talvez seja por isso que o meu “ valioso” não seja quantificado.

A minha preguiça me faz exercitar a paciência. A inconstância a admirar a novidade, a compreender a transformação, a participar da mudança; o incerto me impulsiona a procurar a fé.

A vaidade me inspirar a exaltar a beleza que existe, a enfeitar nos detalhes, a enxergar com encanto, apreciar a arte.

Por ser desorganizada sou obrigada a praticar a criatividade, descobrir meu jeito de fazer.

Sendo esquecida me poupo de amarguras, perdôo sem mais contratempos, relevo sem grande esforço, e ainda me permito usufruir da graça de (re) conhecer tudo várias vezes.

A teimosia, meu defeito mais evidente (e o meu favorito) me indica a perseverança. O conservacionismo me faz valorizar minhas crenças, ser fiel às minhas ideologias, leva a descobrir minhas próprias verdades.

É quando sinto medo que entendo o tamanho de minha coragem, é por culpa de minha carência que me cativo pela companhia, na superação de meu egoísmo reconheço as atitudes fraternas.

Minhas imperfeições revelam quem são as afeições sinceras. Aqueles que são ternos mesmo nas minhas fraquezas.

Sou imperfeita, e aceito com humildade a incrível capacidade de aprender pela vida a fora.

Sou imperfeita, e encaro com entusiasmo a missão de procurar ser melhor a cada dia, e não A melhor.


Sou imperfeita, e isto me treina a ser mais justa e tolerante com as faltas de outrem.


Sou imperfeita, e é o conjunto de defeitos que meu torna única , e são as escolhas de faço a partir disto que revela minhas virtudes, que me ínsita a desafiar meus próprios vícios e limites.

Sou imperfeita, simplesmente imperfeita.




"Quando eu nasci veio um anjo safado,

o chato de um querubim,

que decretou que tava predestinado

a ser errado assim.

Já de saída a minha estrada entortou,

mas vou até o fim."

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Serra Nevada.




Eu havia chegado a pouco, e depois de um longo período de distância nos nós reencontrávamos. Não sabíamos muito bem o que esperar um do outro, e o destino parecia ter resolvido não ser muito gentil comigo na minha chegada.

A viagem tinha sido longa (mais longa do que a distância que nos separava), mas nada me impediria de reencontrar o meu amado. Ora, pelo simples fato de que nos amávamos! E isto me bastava para recorrer a qualquer sopro de vida que me levasse a caminhar a seu encontro, me bastava para atravessar oceanos (literalmente) só para sentir seu calor, me bastava para abrir mão de qualquer luxo, de tudo que me era conhecido, abrir mão até mesmo do meu próprio ego.

Mas nada disto bastava para saber o que esperar um do outro. E este desencontro de olhares se tornava mais evidente a cada dia. Não éramos mais os mesmos, mas acima de tudo havia o amor, aquele puro e forte, aquele amor colegial, aquele amor que não conhece a dor. E era só por isso que caminhávamos juntos.

Não nos reconhecíamos, e tudo ali parecia conspirar para aumentar minha insegurança. Mas por algum motivo que escapa a minha percepção ainda nos amávamos.

Eu o amava tanto, e tão completamente que estava ali sem nenhuma pretensão, estava ali só para apoiar meus passos. O amava tanto e tão completamente que isso por vezes o angustiava, pois não era tão transparente de amor, e temia não ser capaz de corresponder as minhas devoções.

Não lhe queria cobrar nada, tornava mudo tudo meu medo, sufocava qualquer íntimo desejo, para não lhe “atrapalhar”, mas mesmo me reprimindo aos meus extremos segurava firme sua mão quando caminhávamos juntos, como se fosse meu colete salva-vidas que impediria que me afogasse na solidão, como se fosse o ar que me faltava aos pulmões quando suspirava de saudade de casa.

Ele também me amava, eu sei, e nada seria capaz de convencer que não havia paixão no fundo daqueles olhos castanhos. Só eu sei o tamanho da ternura que havia em seu abraço, só eu sei que foi a mim que ele confidenciou seus segredos e temores mais obscuros.

Eu sei que ele também faria tudo que pudesse, mas aquilo tudo se tornava pesado demais para ele. Ora, ele é apenas um Rapaz!Tinha seus próprios desejos e dúvidas.

Nenhuma palavra precisava ser dita para entender este desencontro, e da janela da sala, a Serra nevada testemunhava este sentimento. Lá de cima uma pitada de gelo resistia à chegada da primavera, assim como o nosso amor. Esta certa afinidade nos levou a desejar estar lá em cima, lá no gelo da Serra.

Pegamos a estrada com nada mais que um desejo, uma fita cassete de músicas antigas e uma câmera, afinal isso merecia registros.

Quilômetros e quilômetros de subida, a cada metro pareciam tornar mais fácil tocar o Céu. Nossos sorrisos rasgavam a bruma branca que escondia o asfalto. Tudo era lindo lá de cima, os cães, as placas, os rios.

Queria poder engolir aquele momento, para que nunca mais ele saísse de mim. O boneco de neve realizou meu desejo de infância, e relembrou da infância desejada do meu Rapaz. Aquele não era um lugar incomum para mim, estive lá tantas vezes nas memórias contadas do meu Amor.

Entramos na neve, sem nos abater pelo frio. A alegria de estarmos ali, JUNTOS, era maior que qualquer sensação. O cândido nevoeiro nós envolveu, apagando todo a resto da paisagem, como se nada mais existisse. Nem asfalto, nem cães, nem placas, nem rios, nem desencontros.

Nada mais havia, em qualquer direção que olhássemos só víamos um ao outro. E isso nos bastava.

E aquela pitada de neve, que de longe se via, era na verdade quilos, toneladas, infindável quantidade de gelo. E para brindar a nossa Felicidade, nevava, recolocando grama a grama a neve que a primavera ousava derreter.
Aquele gelo nos dizia que ainda ia resistir bravamente, ultrapassando qualquer previsão, mas que um dia iria virar água, quando a primavera se tornasse “quente” e “pesada” demais para ele. Mas que ano após ano, no inverno, ele saberia como renascer, talvez não do mesmo jeito, talvez não no mesmo lugar. Mas com cada grama de neve, o gelo iria retornar, rigoroso e eterno, até a próxima primavera.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

MUDE


Mude


Mude


Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.


Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.


Mais tarde, mude de mesa.


Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.


Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.


Tome outros ônibus.


Mude por uns tempos o estilo das roupas.


Dê os teus sapatos velhos.


Procure andar descalço alguns dias.


Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.


Veja o mundo de outras perspectivas.


Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.


Durma no outro lado da cama...


depois, procure dormir em outras camas.


Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros, Viva outros romances.


Não faça do hábito um estilo de vida.


Ame a novidade.


Durma mais tarde.


Durma mais cedo.


Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.


Corrija a postura.


Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.


Tente o novo todo dia. o novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. a nova vida.


Tente.


Busque novos amigos.


Tente novos amores.


Faça novas relações.


Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida compre pão em outra padaria.


Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.


Escolha outro mercado, outra marca de sabonete, outro creme dental... tome banho em novos horários.


Use canetas de outras cores.


Vá passear em outros lugares.


Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.


Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, ecscreva outras poesias.


Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.


Abra conta em outro banco.


Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.


Mude.


Lembre-se de que a Vida é uma só.


Arrume um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.


Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.


Seja criativo.


E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.


Experimente coisas novas.


Troque novamente.


Mude, de novo.


Experimente outra vez.


Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores, mas não é isso o que importa.


O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia.


Só o que está morto não muda!
(Antonio Abujamra) http://mude.blogspot.com

domingo, 13 de julho de 2008

Azul Marinho






Fim de tarde de verão, e nada mais convidativo que um passeio a beira mar. Os pés descansam calmos sobre a areia molhada, os olhos de espreguiçam, esticando ao longe, até onde o céu deixar.

A salgada maresia se espalha em meu rosto, assopra meus cachos a ondular, e desenha com sombras aquela cena pouco cotidiana, para quem está acostumada com os peixes já em latinhas.

Lá de cima o sol espia num mormaço folgado, e pouco a pouco se rende a fadiga de tanto ensolarar e aconchega-se macio por entre as montanhas a oeste, para comigo partilhar aquele momento.

O céu se pinta em rosa, construindo o cenário perfeito, cria certo ar poético, que me fez romantizar uma simples pescaria.

Singular, ou não, aquela movimentação prendeu meus sentidos e aguçou minhas percepções. Tantos braços e pernas engajados harmoniosamente na mesma intenção, e a vida que fervilha por entre a rede.

O mar se desnudava em cara metro de rede que saia do oceano. Apresentava-se, como quem mostra o currículo na procura de um novo emprego, deixando clara suas qualidades nas entrelinhas de cada peixe que saia de seu ventre.

E tal como espectadores fanáticos as pessoas se aglomeravam em torno da rede, pulxavam-na com aquele desespero dos apaixonados que anseiam em desvendar qualquer vestígio de sua amado.

E eu, assim como as outras pessoas que tinham a sorte de estarem presentes naquele momento, agia como se entorpecida por aquela visão. Aproximei-me absolutamente hipnotizada.

Sentia-me como uma voyeur, deliciando-me com o prazer raro de espiar tal ato de amor.

Sentia-me tola, por não ser capaz de ver toda aquela abundancia que se encobria daquele manto, que tornava hora a hora um azul mais profundo, completamente azul marinho.

Mesmo sem nenhuma palavra dita os peixes eram recebidos em prece(à Lua, à Iemanjá, à riqueza deste mar). Uma verdadeira benção, repartida irmanamente entre todos aqueles que participaram do espetáculo.A fartura se dividia entre mãe, tios, visinhos, amigos, ”voyeurs”.

Nesta celebração à vida, o que enxergava-se “a olhos vistos” era o respeito à natureza.O alimento recebido, como por mérito, para aqueles que aprenderam o idioma natural, ouvido por quem entende as mares, as fases da lua, o movimento dos cardumes, a sustentabilidade do mar; e vê sua própria Vida como apena uma gota no imenso oceano: humilde na essência ,fundamental no todo.

domingo, 22 de junho de 2008

Sei lá!


Tem dias que eu fico pensando na vida

E sinceramente não vejo saída.

Como é, por exemplo, que dá pra entender:

A gente mal nasce, começa a morrer.


Depois da chegada vem sempre a partida,

Porque não há nada sem separação.

Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.

Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.


A gente nem sabe que males se apronta.

Fazendo de conta, fingindo esquecer

Que nada renasce antes que se acabe,

E o sol que desponta tem que anoitecer.


De nada adianta ficar-se de fora.

A hora do sim é o descuido do não.

Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.

Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.


(Toquinho)

terça-feira, 3 de junho de 2008

Por um fio:



Me deu vontade de te ligar
A noite é mais gostoso
O silêncio da madrugada
ri de nossa gargalhada

Apenas o embalo da brisa noturna leva ao longe a inspiração
Os sons da mente se escutam quando o silêncio é a canção.

E cidade se cala
Para ouvir o coração
E toda festa é boa
Quando o sim esquece o não


De noite não há vergonhas , espalham-se as saudades
No chão da casa do amigo sussuram-se insanidades

Verdades nuas, sorrisos rasgados
beijos escondidos nos cantos do quarto



Me deu vontade de te ligar
E a noite é bem melhor
Não quero confessar mais ao travesseiro
as dores do peito inteiro


A noite os gatos são partos
e as mentiras tiram as mascaras e põe pijamas

O travesseiro não se engana, ouve os sonhos inquietos

Só a Lua a testemunha do que a noite é capaz
No céu nasce uma estrela para cada saudade nomeada pelo silêncio da madrugada

Não adianta ascender a Luz para enganar a insônia
As lembranças são fantasmas até que a quietude seja ensolarada

sábado, 31 de maio de 2008

Coisas a Te dizer

Quando vamos embora, quando decidimos por um outro caminho talvez algumas palavras fiquem por serem ditas.Certas palavras nunca terão a chance de serem pronunciadas, só ocuparam espaço na cama quando sussurradas ao travesseiro.

Mas se existe um adjetivo que me nomeie, o melhor deve ser teimosia. Mesmo não dedicando minhas palavras à pessoa certa, soltarei-as ao vento, pois eu como uma eterna amante da liberdade, me nego a aprisionar qualquer vestígio de pensamento indigno de minha felicidade.

Ficarias surpresa com as coisas que tenho a te dizer.

Logo você, tão amargurada pela própria infelicidade que não sabe ver o mundo que existe por estar presa no sonho impossível que criou. Não sabe enxergar nenhum vestígio do que pode ser amor real, pois construiu algo tão ilusório que só cabem mesmo nos folhetins baratos.

Você que culpa o (des)amor que escolheu para casar, por sua desistência do prazer de viver, nunca será capaz de entender um amor que ampara, um amor que apóia, um amor que impulsiona. Um amor autêntico, com suas qualidades e defeitos, com suas distancias e presenças. Um amor cotidiano, de arroz com feijão, de domingos na sala.

Logo você, que não nunca soube viver o presente, quis congelar o passado e inventou um futuro que já não cabe em sua própria vida. Nunca será capaz de entender alguém que escolhe vivenciar cada instante do presente, entregando-se inteiramente aos seus pesares e contentamentos.

Você que cria uma auto-imagem empacada, que renega as rugas do rosto, nunca será capaz de compreender alguém que respeita o efêmero, que admira as qualidades adquiridas de cada idade.

Submissa a felicidades momentâneas, futilizou tanto a própria vida que distorceu os valores, condenando-se a não ver a fortuna que a vida te oferece. Fortuna esta que o dinheiro, que tanto valoriza não compra, mas que o destino te entregou de graça, e você se nega a estimar.

Você que se ornamenta com muitas pulseiras de ouro nunca será capaz de compreender quem se enfeita de humildades, que se delicia com o doce da padaria e enaltece com os pés descalços.

Você que vive de mascarar-se, dobra-se as aparências, nunca será capaz de ver além dos trajes. Incapaz de enxergar que meu cabelo ruim é bem vindo à sociedade a qual seu casaco de peles jamais conhecerá.

Diz-se tão corajosa, mas prefiriu passar a vida a lamentar-se, chorando, cega pela magoa do que arriscar-se. Rendeu-se ao comodismo, e culpa, a quem te acolheu apesar de tudo, pelo seu infortúnio. Nunca compreenderá a quem se aventura, por um amor, por um sonho, ou quem sabe só para driblar a rotina. Não compreende o mérito de quem ousa, e se submete a errar.
Acostumada a brigar com a vida não percebe a força e o valor que tem a tolerância. Tolerância em sua mais legítima face, a que não julga a que compreende as diferenças, a que perdoa.

Você que não adoça o café da vida por medo de gostar, e por isso envenena a quem te cerca. Cobre-se de rosas, mas espeta quem te admire com o espinho. Afasta quem te ama e não deixa espaço para se surpreender com os novos.

Talvez você me veja com demérito por minha pouca idade, mas minha maturidade ultrapassa seus anos de existência vil, que transparece por seus atos, palavras e pensamentos. E eu talvez a olhe com pouca admiração, porque alguém que não aprendeu com os erros a ser Feliz, quem sabe pouco tenha a me ensinar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Presentes da estrada.

"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que não se pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que quero".

(F.Pessoa)



Pela janela o mundo me traz tanta beleza que há, se mostra imenso de coisas a descobrir, viver e ver.

Aqui dentro o mundo me traz tantas perguntas, se mostra tão pequeno feito de encontros e coincidências.

Como isto não pode caber em uma fotografia?Como isto não pode caber em palavras?

Mas é por isto que é tão profundo e intenso. Porque são presentes da estrada que são feitos só para serem vividos, só para aqueles que conseguem se aventurar, e são presentes até a próxima estação...ou não.

São presentes para sempre dentro de nós, construindo de lembranças um cantinho de quem somos.
Republica Tcheca/Praga,15 de setembro de 2007.

Com gosto de maçã verde


Já se começam sentir os ares da primavera. O céu já é menos cinza, os ventos menos gelados, e as arvores, antes apenas galhos, já dão ares de esperança. Enfeitam-se em cores e encantam os pássaros, que reaparecem.

Não sei se todos se admiram tanto com o nascer da primavera, ou se isto que eu sinto vem mesmo de dentro de mim.

Vim descobrir este continente com esta ânsia de ver brotar nos ramos flores novas de bons presságios; e o que encontrei de boas vindas foram arvores ressequidas pelo friu (talvez do inverno da Europa, talvez pelo friu dos europeus) e agora que já me sinto assim: mais coloridas, sou finalmente recompensada por esta estação que me enche de luz.

Por isso não sei se vejo o que sinto, ou se sinto o que vejo. Só sei que depois de tanto sinto-me feliz por aqui estar, e saborear o fim do inverno com gosto das maçãs verdes,que são, apesar de ácidas, doces, mais aqui do que em qualquer outro lugar do mundo.


Coimbra, 06 de março de 2007.