sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A Coleção.




Tem nesta vida quem colecione de tudo.

E eu (e minha velha mania de filosofar tudo a minha volta) ponho-me a fazer piruetas mentais, procurando encontrar algum vestígio de razão, no que na verdade SÓ FREUD explica.

Quem sabe na coleção de selos tenha uma vontade incontida de se comunicar, além de céu e mar; ou então por trás de tantos times de futebol de botão, não tenha uma nostalgia gostosa, dos dias com o vovô. Nos papéis de carta, o sonho de escrever poemas apaixonados, para o príncipe que ainda vai chegar.Nos cartões postais, um desejo imponderável de viajar a novos lugares.

Mas o que me fez refletir sobre algo tão banal? Uma coleção no mínimo singular, de um ser ímpar!

Cercado pelas frias e úmidas paredes do banheiro, no cantinho tímido, em cima da pia, mora a mais mimosa coleção que já conheci. Redecora a brancura frígida com as cores intimas de uma escolha tão pessoal.

Escovas de dentes????...

Pois é, não foi proposital, mas a cada dia a coleção foi crescendo, e conquistando um espaço que agora é só seu.

Nada é mais acolhedor que ter a sua escova de dentes esperando por você. Quando você sai de casa uma das primeiras coisas que lembra é de levar a sua escova de dentes, e como não se sentir em casa quando “ela” ta ali em cima te esperando, da sua cor preferida, desgastada com seu sabor???

E o que levaria alguém ter uma coleção assim?

Aquelas escovas intrigariam toda a psicanálise moderna,contudo só é preciso um pouquinho de sensibilidade.A olhar para aquele potinho, no cantinho nada mais pode ser visto que a expressão mais doce do que pode ser intimidade, é uma coleção de amizades profundas,que rompe aquelas barreiras que só não existem em família,concluindo,é uma coleção de parentes escolhidos.


Afinal, não é pra qualquer um juntar as escovas de dentes.

Lembre-se

A taça sempre pode estar....

meio cheia,




....ou meio vazia.

Só depende do seu jeito de ver!

domingo, 11 de novembro de 2007

Adultices


Cada dia que passa mais me convenço de como é difícil ser gente grande.

Descubro realidades que me insatisfazem, que ferem fundo o meu âmago pueril. Gente grande desaprende a viver, esquece a humildade ingênua que enfeita de vida o coração moleque.

Já tenho saudade do tempo em que sentia medo do boi da cara preta, em que má mesmo era a Cuca. Agora no mundo em que vivo agente tem que desconfiar até da sombra, chupa-cabra está pedindo arrego no Ibama com toda esta concorrência de vilões, cada vez mais mal intencionados.

Tem até quem ponha a própria mãe em liquidação pensando mesmo é no próprio umbigo, que talvez, quem sabe até possa ganhar um piercing tamanha sua importância.

Ô tempo baum, quando eu pensava que ser adulto era calçar salto alto 5 números maior que o meu. Em pensar que hoje em dia tenho que recorrer às aulas de yoga por 15 minutos descalça se não posso ser chamada de ativista do Lula, ou hippie retrograda.

Tem hora que já não dá mais pra saber o que fazer com tanto stress, está na moda ter depressão. Dá vontade mesmo de pegar carona numa calda de cometa, mergulhar em uma bacia de pipoca e esquecer de tudo vendo os trapalhões na secção da tarde.

Rei, soldado, herói, pirata e domador; Hobem Wod era pouco, já que qualquer história ia dar em felizes para sempre. Os príncipes eram encantados e as meninas sempre lindas e educadas princesas mágicas. E depois de tanto brincar tudo ia terminar num le petti café com chocolá.

Gente grande aprende a complicar tudo, as aventuras têm que ser podadas pela falta de dinheiro, de coragem, de tempo. Agente vive correndo pra ter mais tempo pra perder fazendo aquilo que não nos satisfaz.

Subir numa árvore pra roubar as frutas do Nhô Lau nem pensar, adulto só lembra o que é planta quando esta discutindo o efeito estufa, ou numa terapia de grupo, quando abraça uma árvore pra buscar o eu interior.

Época de ouro quando se fosse pra mentir seria a idade, se fosse pra enganar era a hora, e a maior fofoca era que o cravo brigou com a rosa. As disputas eram por brigadeiros e beijinhos da vovó. E as calorias????Nada que três polichinelos não adiantassem.

E quando agente brigava com quem agente gostava de verdade bastava virar a página e convidar para um novo faz de conta.

Ia eu pensar no movimento feminista quando saía na rua pra chutar bola com os meninos, ou entender o preconceito étnico e racial quando brincava de ser perêrê peralta?Não são rótulos demais pra quem está aprendendo a ler. (E depois dizem que criança não sabe das coisas)

Gente grande esquece da magia da vida, do encanto da fada, das boas lembranças do Papai Noel.

Pular corda, bater bafo, empinar pipa, rodar pião. E o tempo rodou num instante nas doas do meu coração.

Já decidi, chega de adultices, quando crescer quero ser criança!

Um beijo pra minha mãe, pro meu pai e um especialmente pra você.

Para enfrentar um dia gril


Há dias em que as nuvens encobrem qualquer sentimento azul.
Há dias em que as palavras se perdem em meio a pensamento ocre.
Há dias em que os olhos vêm tudo em tons sépia.

Porém é nestes dias que as inspirações impulsionam os anseios a um sopro celeste, para os pulmões de um espírito asmático.

A alma humana surpreende nas formas em que encontra para se desaprisionar de uma existência gril. E a minha me ilumina quando encontra uma tela virgem, a espera das primeiras pinceladas despudoradas que colorem a candura e florescem em mim.

Sentindo a tinta que desliza num banho tépido, o magenta que assanhado escapole da ponta do pincel e acaricia meus dedos, me seduzindo à nuança romântica e abrindo espaço para o verde oliva que logo se espalha pela camisa e pelos meus braços, me remetendo aos dias na fazenda, ao pasto infindável e ao cheiro da minha primeira liberdade infantil. E quem pinta não escapa da força arrematadora do azul da Prússia, que me faz relembrar que os dias duros nada mais serão que tons escuros a espera de um ensinamento branco de titânio, para aí então se transformarem numa lembrança cor de céu, no fim da tarde.

Cada cor que entra no desenho me aviva numa nova tonalidade, que me toca em uma saudade, que me inspira num novo ofuror.

E é o amarelo, o vermelho e o azul que me recompõe em colorido brilhante, e se mesclam nas minhas expectativas para dias de cores originais e ilimitadas.

Espalho pintura pela tela, pelo chão, pela pele. E ela me entra pelos poros, pelos pêlos, pelo sangue, pela célula, se espalha em mim pelo corpo, pelas tristezas, pelos sonhos, pelos olhos. Que já enxergam os dias com olhos de quem vê. Contemplando até a frigidade do cinza, que nós faz caminhar à novos rumos, onde quem sabe haverá mais um cantinho em branco, esperando por se desvirginar em novas cores e novas histórias.
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"Há pessoas que transformam o Sol em uma mancha amarela,mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio Sol."(Pablo Picasso)

sábado, 3 de novembro de 2007

A bailarina



Andando pelas mesmas velhas ruas,mas desta vez sentindo-me realmente sozinha, deparei-me com um cartaz emoldurado pelo teatro Gil Vicente.Era um bailarina clássica, e por instantes me senti refletida naquela imagem.
Vejo toda esta viagem como aquele espetáculo de balé.Para o publico é uma linda imagem,fitas e lantejoulas que enfeitam uma dança perfeita.As luzes dos olofotes que brilham para poucos, que sorriem, e bailam num harmonia encantadora.
Ma s o que não aparece no palco são o calos deixados por tanto esforço, é aquele passo tantas vezes treinado que não sai como deveria,mas sob o palco os erros não tem volta, tem-se que levantar, porque o espetáculo não pode parar.
Sempre aprendi que apesar de qualquer dor as bailarinas sempre sorriem.E ali estava eu, com qualquer sofrimento e suor, subindo,linda, nas pontas dos pés, sem pensar no que vai ser quando as cortinas se fecharem.
Enfeitei-me com fitas e lantejoulas e continue subindo as mesmas velhas ruas,mas desta vez sentindo-me realmente dançando, porque o espetáculo não pode parar.