
Fim de tarde de verão, e nada mais convidativo que um passeio a beira mar. Os pés descansam calmos sobre a areia molhada, os olhos de espreguiçam, esticando ao longe, até onde o céu deixar.
A salgada maresia se espalha em meu rosto, assopra meus cachos a ondular, e desenha com sombras aquela cena pouco cotidiana, para quem está acostumada com os peixes já em latinhas.
Lá de cima o sol espia num mormaço folgado, e pouco a pouco se rende a fadiga de tanto ensolarar e aconchega-se macio por entre as montanhas a oeste, para comigo partilhar aquele momento.
O céu se pinta em rosa, construindo o cenário perfeito, cria certo ar poético, que me fez romantizar uma simples pescaria.
Singular, ou não, aquela movimentação prendeu meus sentidos e aguçou minhas percepções. Tantos braços e pernas engajados harmoniosamente na mesma intenção, e a vida que fervilha por entre a rede.
O mar se desnudava em cara metro de rede que saia do oceano. Apresentava-se, como quem mostra o currículo na procura de um novo emprego, deixando clara suas qualidades nas entrelinhas de cada peixe que saia de seu ventre.
E tal como espectadores fanáticos as pessoas se aglomeravam em torno da rede, pulxavam-na com aquele desespero dos apaixonados que anseiam em desvendar qualquer vestígio de sua amado.
E eu, assim como as outras pessoas que tinham a sorte de estarem presentes naquele momento, agia como se entorpecida por aquela visão. Aproximei-me absolutamente hipnotizada.
Sentia-me como uma voyeur, deliciando-me com o prazer raro de espiar tal ato de amor.
Sentia-me tola, por não ser capaz de ver toda aquela abundancia que se encobria daquele manto, que tornava hora a hora um azul mais profundo, completamente azul marinho.
Mesmo sem nenhuma palavra dita os peixes eram recebidos em prece(à Lua, à Iemanjá, à riqueza deste mar). Uma verdadeira benção, repartida irmanamente entre todos aqueles que participaram do espetáculo.A fartura se dividia entre mãe, tios, visinhos, amigos, ”voyeurs”.
Nesta celebração à vida, o que enxergava-se “a olhos vistos” era o respeito à natureza.O alimento recebido, como por mérito, para aqueles que aprenderam o idioma natural, ouvido por quem entende as mares, as fases da lua, o movimento dos cardumes, a sustentabilidade do mar; e vê sua própria Vida como apena uma gota no imenso oceano: humilde na essência ,fundamental no todo.
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